Quando estiveres a escrever a história da tua vida, não deixes que ninguém pegue na caneta por ti (...)

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

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Ainda está embebida em todo o romantismo e intimismo dos típicos finais de ano. Embora ainda não tenha sido o ano do beijo à meia-noite, do vestido preto comprido, curto, com exuberante decote ou então, todo rendado, do flute que faz transbordar o espumante ou das uvas passas (substituídas por pinhões, camarões, gomas, ou nada).
Pousada sobre o céu, que hoje, ao cair do sol, permanece rosado, mais rosado que nunca, decidi-se e sai. Agasalha-se. O frio que faz lá fora nota-se à distância. Os vidros ressoam pelo calor humano e agradável que ali dentro se faz sentir. Pega nas chaves do carro, tira a carta de condução da carteira e leva apenas isso consigo. Leva ainda os telemóveis, no entanto em modo avião. Afinal, o que vai ela fazer, se não, voar? Que ironia.
Percorre de novo aquele indistinguível caminho. O destino de sempre. A rota de sempre. Lembra-se da cumplicidade de sempre. No entanto desta vez está sozinha no local. Quer-se dizer... Sozinha não. O que não falta ali são pessoas. O lugar é público. 
Depois de olhar para si, de alto a baixo, e voltar a pensar em tudo que passou ali, revive-se.
Ao virar a cara, olha-o a ele. Nos devaneios do que pensa, já caminhou com um ele, ao lado de um ele, já beijou ali um ele, acariciou um ele. Já lhe pertenceu. A um ele!
Mas o "ele" que ela olhara, agora era um ele completamente desconhecido, com quem cruzara o olhar, após o virar a cara. Só que era o mesmo "ele" que ela já havia reparado das últimas vezes que foi aquele sítio, sozinha... Depois de já estar sozinha. E aquele "ele" chamava-lhe à atenção. Um ele que parecia, também como ela, sozinho no meio da multidão. 
Aproximou-se. Ela acabara de entrar no bar e pedir um café. Ao balcão. Para nem sequer ficar muito tempo ali. Que raio.... Não é que aquela presença a estava a incomodar?
Ele não parava de a olhar. Ela desviava-se. 
Avistou uma Happy que tinha a capa recheada com um título a letras gordas "Matemática do eu". Matemática, a sua perdição. É, desde que se conhece, louca por números. Depois de ver que o subtítulo falava da numerologia e 2015 achou uma combinação predilecta. Ela, que até então, tinha em mente só tomar o café, ao balcão e abandonar, acabou por se render, sentando-se na mesa do canto. Aquela que tinha um candeeiro de tecto, que estava baixo, sem cuidado quase lhe dava com a cabeça, cheio de vidrilhos, lindo de morrer, e muito anos 80. Era a mesa do canto, era mesmo assim conhecida, percebera isso quando o empregado do balcão pronunciou para o empregado de mesa: 
- Olha ali a menina da mesa do canto! - após ela ter chamado para pedir, afinal, uma água. 
Não queria ficar ali assim... Depois disto tudo, e por a mesa ficar envolta no vidro para a montra conseguira observar os movimentos daquele "ele" que a incomodara mal ela ali chegara. Esse mesmo ele que agora já se havia sentado, mas que foi possível ver, ainda continuava a observá-la. De forma discreta mas não invisível. 
Depois de ler tudo que dizia sobre os números e essas tretas todas, que tinham também zodíaco misturado para o que podia esperar para 2015, levanta-se e dirige-se à caixa. 
Acabou de pagar, o tal empregado de balcão exclamou: 
- Boa tarde e bom ano, menina!
Sorriu como forma de agradecimento e de retribuir os votos de prosperidade!
Mesmo ao aproximar-se da porta de saída, sente o telemóvel a vibrar no bolso. Antes de lhe ocorrer pegar nele, dá voltas à cabeça em segundos: "Como está o telemóvel a vibrar se eu os coloquei em modo avião?". Sem resposta perspicaz da parte do seu SNC, para ali mesmo, retira o telemóvel do bolso e vê o que se passa. Afinal era só bateria fraca, e aquele velho Samsung mesmo em modo voo, offline, reunião, seja o que for, desde que tenha fome, não se cala. Até se ri para si mesma, depois de pensar que a fome é tramada, e não é só nas pessoas.
Guarda o telemóvel, achava ela, no bolso, até ter ouvido o barulho dele a cair no chão. Afinal não o colocou mesmo no bolso. Quem não a visse ter tomado apenas um café e uma água pensaria que já se sentiam naquele jovem rapariga o efeito de alguns Gin
Dobra-se e já estava o "ele" a olhá-la e a entregar-lhe o telemóvel à mão. "Que cena de filme!" pensa para com os seus botões, "Só mesmo a mim!".
Mas no entanto ainda nenhum deles teria soltado nenhuma palavra. Até que, de repente, ela nota-o a rir-se nos seus olhos. Erguem-se os dois.
Como um verdadeiro cavalheiro, estica-lhe a mão:
- O., prazer.
Ainda meia desnorteada, afinal, J., só havia saído de casa para apanhar ar, refrescar as ideias, e depois de se sentir pormenorizadamente observada, estava naquele momento com um "ele" à sua frente, desconhecido como já se dissera, a dizer-lhe indiretamente "Podemo-nos conhecer?!" ... Ora... Respondeu, claro. Dada a sua boa educação que não lhe permitira agir de outra forma.
- A.... Obrigada!
Sim, porque sentira que tinha de agradecer, não pela forma que ele se apresentara mas sim porque lhe havia apanhado o telemóvel do chão.
- Ora essa, se me permite, sou-lhe sincero. Observei-a e, pela expressão quando pegou no telemóvel, vi que estava pensativa. E foi quase que intuitivo e involuntário apanhar-lhe o telemóvel, estava mesmo ao seu lado.
- De qualquer das formas, obrigada. Fê-lo e isso foi um gesto simpático da sua parte.
- Não somos todos iguais, A.! Devemos ter idades próximas, permita-me que a trate pelo nome.
- Provavelmente, pelo menos pelo aspeto, parece que sim! - Enquanto diz isto acaba por soltar uma gargalhada. O ele parecera-lhe então, simpático.
Entretanto já haviam saído do café. Ele terá-lhe segurado a porta para que ela saísse.
Ele não se fica e responde-lhe:
- 25 anos, assim já ficam as dúvidas tiradas.
- Bem, isso foi um truque para saber a idade....
Ele interrompe: 
- Peço desculpa, não queria de todo ser inconveniente. Seria incapaz de questionar uma mulher acerca da sua idade. 
- Lengas-lengas... Tenho 21, de facto as idades são próximas. Vejo demasiada cordialidade para um rapaz de 25 anos, é bom ver que ainda prevalecem alguns valores em algumas pessoas...
- A minha educação foi algo que sempre prezei. Por respeito, acima de tudo. 
A conversa estava começada. E parecia fluir facilmente. Ela apenas sorriu, como resposta. Não sabia bem o que dizer e pega nas chaves do carro... Ele não se deixa ficar.
- E então, gosta deste lugar? Já não é a primeira vez que a vejo por cá. UPS! Já falei demais... 
- Bem... Está a fazer-se tarde e daqui a nada tenho a minha mãe preocupada comigo. Até logo!
- Até logo?
- É a força do hábito, até depois.
- Até depois?
- Sim! Até depois!?
- Preferia que dissesse até amanhã, ou até depois de amanhã, vá... Até ao dia que me permitir oferecer-lhe um café,
- É muito atencioso da sua parte. A próxima vez que nos encontrarmos aqui, está combinado. Afinal, ambos, frequentamos, habitualmente, esta preciosidade da terra.
- Combinado. Ah e.... Bom ano!
- Bom ano! (risos)
Apressa-se e entra no carro. O que foi aquilo? Ela que estava tão presa haveria-se soltado com um desconhecido, neste tempo de conversa, ali, assim, sem mais nem menos, e sem prever.
Segue viagem que se faz tarde. E acabara por não refrescar as ideias. Ela que queria sair para não pensar em nada. E pensara em tudo.

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Opiniões: Continuo a história? 


(Fonte da imagem: Google)

1 comentário:

Andreia Morais disse...

Sim, continua :)

r: Sem dúvida! Ora essa, não tens que agradecer*