Quando estiveres a escrever a história da tua vida, não deixes que ninguém pegue na caneta por ti (...)

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

"Agonia."

E naquele instante, aquele corredor era pequeno, pequenino. O gabinete de enfermagem estava ali, ao lado. 
Eu era tão reduzida naquele espaço. Observara tudo. Nos pormenores menos simpáticos, disfarçava o olhar e soltava um sorriso, meio escondido, meio sorrateiro. 
E no resto? Naquelas fardas brancas que tinham anjos. Simbolizavam anjos. Eram verdadeiros anjos. Sim, referi as fardas brancas. Essas que estão formatadas na vossa cabeça. 
Ergui-me e enchi-me de força, era a segunda vez que ali estava. A primeira teria sido a maior vitória e a batalha mais dura. Aquela que vitória que, após dias me fez proferir "Acredita que há coisas que me custam muito, e isso não significa que goste menos ou que o meu sentimento seja mais fraco ou mais pequeno."...
E hoje voltara ali. 
Do ar do meu percurso, achei melhor, desta vez não me limitar a procurar o quarto (aliás que agora já conhecia, até). Achei melhor não ir sozinha. 
Tinha passado por duas enfermeiras a conversas na porta da sala de trabalho com um grupo de pouco mais de duas pessoas, à civil. Não parando, apenas abrandando o passo terei dito "Boa tarde."! Depois ao cruzar a outra esquina, que suporta a outra porta da sala de trabalho de enfermagem, mais uma farda branca, ainda de luvas, acabava de entrar com um contentor de corto-prefurantes, na mão. Inevitavelmente passam-te pela cabeça todas as questões éticas, burocráticas, corretas, lindas e bla bla bla pela cabeça, ou não fosse o que mais se debate nesse curso de enfermagem que frequento. 
Decidi usar a porta. Uma enfermeira sentada, provavelmente a fazer registos. O outro enfermeiro a tratar do lixo contaminado e dos tais corto-prefurantes... Da outra porta, que era possível avistar, uma das enfermeiras deixa a conversa e sai. A outra enfermeira interrompe a conversa e questiona de uma ponta para a outra "Precisa de ajuda?", meia apática, mas sorrindo, susurro "Sim!"... É enfermeira e de imediato percebeu que não iria proclamar nada se não viesse ao pé de mim. E eu não avançaria além da porta. Aproximou-se, "Sim?", "Queria visitar uma pessoa que está aqui no quarto ao lado mas queria saber como estão as coisas...", "Bem..." e explicou-me as coisas de forma leiga e meiga. Acima de tudo, meiga. Dócil. Como uma verdadeira enfermeira de coração, não simplesmente de profissão. Depois do que ouvi disse "Gostava de ir....", de imediato me interrompe e diz "Eu acompanho-a!" só fui capaz de responder "Quando é com os nossos, é tudo diferente, enfermeira!". Pensei com os meus botões que tinha todas as certezas daquilo que desde o "Boa tarde" inicial aquela enfermeira me transmitira. Afinal, não precisei de dizer nada para ela perceber que eu só queria que me acompanhasse ao quarto. E claro, nisso voltaram todos os pensamentos das aulas teóricas, teórico-práticas, das práticas-laboratoriais, das orientações tutoriais, dos ensinos clínicos, das integrações à prática clínica... De enfermagem, da comunicação, da ética, dos fundamentos... 
Cheguei, ela acendeu a luz, e aconselhou-me a dirigir-me ao outro lado. Algo que não estava segura para fazer. Deixou-me no momento mais longo e duradouro de sempre. Fiquei. Era esse o objetivo.
O que faria eu se não mais do que, querer poder despedir-me? Deixar um último sussurro, uma última palavra. Um último olhar. Sim, estas melancólicas e clichés coisas que naquele momento foram, acima de tudo, inatingiveis. Estavam presas. Amarradas. E quando expelidas.... Provavelmente deixaram marcas. Mesmo que sem uma resposta de retorno. Nem um olhar. Apenas aquele sofrimento. Não terão sido mais de 5 minutos, mas foram-nos. E foram ali. Onde deviam ser, por forças maiores. "Até logo minha querida." Recuei, apaguei a luz e saí do quarto.
As pernas mais tormentes que nunca, as mãos geladas, o coração, sei lá.... sei lá como esse estava. A cabeça num oito. A coluna com arrepios. Os braços a tremer. E voltara a pensar em tudo daquelas aulas todas... Fui ensinada a lidar com os factos, não com as coisas. Fui ensinada a fazer ou a não fazer, não fui ensinada a ser de ferro. Fui ensinada a tudo.
Mas.... Alto aí... Esquecer a estudante de enfermagem que há em mim! Ali não era nada mais do que visitante, mesmo que, à saída, tendo olhado para a enfermeira com o ar mais subtil de todos, esperando a deixa da conversa que regressara (com aquele grupo à civil), para me despedir e "agradecer" (ou seria "elogiar"? "enaltecer"? "homenagear"?), ela após me  voltar a olhar, após me observar, questiona "é enfermeira?". "Aspirante a...", respondo. "Quando são nossos é diferente....". Com os olhos em água só lhe fui capaz de acenar e dizer muito baixinho "Agonia...".... "Aborda todos os doentes como abordaste esta pessoa, serás um excelente profissional." Só lhe respondi "Trabalho para isso. Obrigada, enfermeira!"
Porque dói tanto quando caímos na (real) realidade do fenómeno (ciclo) da vida é realmente um ciclo? Com um fim (infelizmente) inevitável? Para nós da saúde... Para nós que vestimos a farda.... Para nós que um dia qualquer, estamos do outro lado... Para nós que apesar da dor, do sofrimento, da conotação negativa que muitas vezes temos a nós associados, temos o trabalho mais bonito do mundo! O trabalho sim... Não é o emprego. Não é a profissão. Porque, para mim, o verdadeiro e único título que nos define deve-se muito ao facto da enfermagem, para nós, ser muito mais do que uma profissão, do que um emprego.

Hoje, não sei se conseguirei dormir, mas hoje, venci mais batalhas, por piores que tenham sido as situações que nelas me colocaram, hoje tive mais certezas, por mais que a vida cada vez mais se revele uma enorme dúvida.

Um bem haja, a todos aqueles que são enfermeiros, de trabalho e de coração!

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